Moral e Ética

Topo Campanha [08abr15]

MORAL E ÉTICA

Clovis Purper Bandeira

 

 

Comecemos pelas definições.

          Moral deriva do latim mores, “relativo aos costumes”. Esta palavra se originou a partir do intento dos romanos traduzirem a palavra grega êthica, e não traduz por completo a palavra grega originária.

É que êthica possuía, para os gregos, dois sentidos complementares: o primeiro derivava de êthos e significava, numa palavra, a interioridade do ato humano, ou seja, aquilo que gera uma ação genuinamente humana e que brota de dentro do sujeito moral, ou seja, êthos remete-nos para a intenção.

Por outro lado, êthica significava também éthos, remetendo-nos para a questão dos hábitos, costumes, usos e regras, o que se materializa na assimilação social dos valores.

A tradução latina do termo êthica para mores “esqueceu” o sentido de êthos (a dimensão pessoal do ato humano), privilegiando o sentido comunitário da atitude valorativa. Dessa tradução incompleta resulta a confusão que muitos, hoje, fazem entre os termos ética e moral.

A ética pode encontrar-se com a moral[1], pois a suporta, na medida em que não existem costumes ou hábitos sociais completamente separados de uma ética individual. Da ética individual se passa a um valor social, e deste, quando devidamente enraizado numa sociedade, se passa à lei. Assim, pode-se afirmar, num sentido geral, que não existe lei sem uma ética que lhe sirva de alicerce.

Os princípios morais como a honestidade, a bondade, o respeito, a virtude determinam o sentido moral de cada indivíduo. São valores universais que regem a conduta humana e as relações saudáveis e harmoniosas.

Neste sentido, ética pode ser definida como a ciência que estuda a conduta humana e a moral é a qualidade desta conduta, quando se julga do ponto de vista do Bem e do Mal.

Num sentido menos filosófico e mais prático, podemos compreender um pouco melhor esse conceito examinando certas condutas do nosso dia a dia, quando nos referimos, por exemplo, ao comportamento de alguns profissionais como um médico, jornalista, empresário ou político. Para estes casos, é bastante comum ouvir expressões como: ética médica, ética jornalística, ética empresarial e ética pública.

O tema da ética no serviço público está diretamente relacionada com a conduta dos funcionários que ocupam cargos públicos. Tais indivíduos devem agir conforme um padrão ético, exibindo valores morais como a boa fé, honestidade e outros princípios necessários para uma vida saudável no seio da sociedade.

Quando uma pessoa é eleita para um cargo público, a sociedade deposita nela confiança, e espera que ela cumpra um padrão ético. Assim, essa pessoa deve estar ao nível dessa confiança e exercer a sua função seguindo determinados valores, princípios, ideais e regras. Para isso ela deve estar preparada para pôr em prática políticas que beneficiem o país e a comunidade a nível social, econômico e político.

Infelizmente os casos de corrupção no âmbito do serviço público são fruto de profissionais que não trabalham de forma ética.

Chegamos, assim, a partir de conceitos filosóficos, ao caso brasileiro de falta de ética e de comportamento moral por parte de tantos políticos brasileiros. Para eles, parece não haver distinção entre bem e mal, certo ou errado, moral imoral ou amoral.

Só o que lhes interessa é locupletar-se no poder, tirar o máximo proveito de sua situação, perpetuar-se nela diretamente ou através de parentes ou descendentes que os substituam, aparelhar ao máximo o órgão público sobre o qual têm autoridade com o maior número de correligionários e apaniguados que lhes serão gratos e saberão recompensá-los por seus favores.

Misturam o público com o privado, apoderando-se das benesses dos cargos a que tiveram acesso como se os mesmos fossem sua propriedade particular e tivessem direito de explorá-lo, política e financeiramente, como tal. Essa mentalidade deturpada conduz ao crime de corrupção.

A palavra corrupção relaciona-se a outras de sentido conexo, como putrefação, suborno, prevaricação, devassidão, lesa-pátria. 

O brasileiro vem sendo, nos últimos tempos, assombrado por um crescente número de denúncias de corrupção nos órgãos governamentais e órgãos de interesse público infiltrados por homens sem caráter, a mando de partidos ou grupos políticos, exclusivamente para roubar e desviar recursos públicos, que enchem bolsos particulares e cofres políticos.

Não nos deixemos iludir por termos politicamente corretos como malfeitos, desvios de conduta e que tais: corrupção é crime.

Não se trata de delito menor, infração desculpável, ato de aloprados: trata-se de crime, e dos mais graves que um servidor público pode cometer, pois estará se apropriando do que lhe foi confiado para guardar e gerir da maneira mais eficaz que lhe seja possível, em nome da sociedade.

Também são inválidas as desculpas de que “todos procedem assim”, como se pertencer a uma quadrilha de bandidos justificasse o roubo. Além disso, a generalização é mentirosa: nem todos procedem assim.

Na apresentação de seu livro “Década Perdida”, sobre os dez anos de PT no poder, o Prof. Marco Antonio Villa pinta, em cores vivas, o triste momento histórico que atravessamos:

“Vivemos um tempo sombrio, uma época de vale-tudo. Desapareceram os homens públicos. Foram substituídos pelos políticos profissionais. Todos querem enriquecer a qualquer preço. E rapidamente. Não importam os meios. Garantidos pela impunidade, sabem que se forem apanhados têm sempre uma banca de advogados, regiamente pagos, para livrá-los de alguma condenação.

Os escândalos de corrupção – e foram tantos – não representaram um ponto fora da curva. Eram parte do projeto de poder, no qual não se dissociou, em momento algum, o interesse público do partidário – e, algumas vezes, do simples atendimento aos interesses privados da sua liderança, como no escândalo do mensalão.

São anos marcados pela hipocrisia. Não há mais ideologia. Longe disso. A disputa política é pelo poder, que tudo pode e no qual nada é proibido. O Brasil de hoje é uma sociedade invertebrada. Amorfa, passiva, sem capacidade de reação. É uma República bufa, uma República petista.”

          Este, infelizmente, é o preço que uma Nação paga por aceitar a falta de ética e de moral em seu serviço público.

          “O tempora! O mores!” exclamava Cícero contra a depravação de seus contemporâneos. “Ó tempos! Ó costumes!” ecoamos hoje, mais de dois mil anos depois.

 

Clovis Purper Bandeira é General de Divisão e editor de opinião do Clube Militar


[1] Moral pode ser também uma palavra masculina. Neste caso, significa estado de espírito, vigor na ação, espírito de luta, confiança, coragem.


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