25 DE AGOSTO DE 1961

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25 DE AGOSTO DE 1961

 

Essas reflexões faço, pensando nos anos da formação da Turma a que pertenço

e no momento político que vive o País. Não pode ter sido em vão o que a História nos ensinou.

 

Gen Div Gilberto Rodrigues Pimentel

23 de agosto de 2017

 

 

Na data de hoje, 25 de agosto, há 56 anos, Jânio Quadros abandonava a Presidência da República. Ele esteve no poder por exatos 206 dias. Nunca se conseguiu chegar a uma conclusão definitiva sobre os motivos que o levaram a tomar atitude tão extremada. É um quebra-cabeças no qual sempre ficam faltando, ou até mesmo sobrando, algumas peças importantes. Qualquer explicação que se dê é pouca, ainda que o próprio Jânio tenha afirmado, trinta anos depois, que a ausência total de apoio parlamentar obstava-lhe os passos, impedindo-o de governar. Argumento mais digerível, certamente, do que as tais genéricas “forças ocultas” a que o renunciante se referiu ainda naquele lastimoso 25 de agosto e que alguns apressadinhos pretenderam localizar na cúpula das Forças Armadas. Nada mais irreal, pois os chefes militares, mesmo com um pé atrás, diante da política errática que o primeiro mandatário vinha praticando, jamais lhe faltaram com o necessário suporte, até porque sabiam o tamanho da crise que se seguiria, caso o sucessor legal, este sim, repudiado pela cúpula militar viesse, como veio, a ocupar a presidência.

Quanto mais leio sobre o episódio, quanto mais medito a respeito da estranha personalidade de Jânio, e recordo as ridículas medidas que ele tomou nos sete meses de governo, mais me convenço que o povo elegera um doido, e em processo de agravamento da insanidade que o acometia. É certo que os paulistas o tiveram como bom prefeito e governador, ainda que no exercício daqueles cargos, ele já desse claros sinais de desequilíbrio. Tenho para mim que, com ou sem respaldo do Congresso, JQ não concluiria seu mandato; e mais, que a causa imediata da sua abdicação foi a pressão exercida por Carlos Lacerda, notório “matador” de presidentes, que só por interesse político apoiara sua eleição, mas que, por não se conformar com as manifestações de antiamericanismo de Jânio e sua surpreendente guinada à esquerda, logo se transformou no seu principal algoz.

Assim, minha geração, e aqui me refiro aos que nasceram na década de 40, ainda muito jovens, pela segunda vez no intervalo de sete anos pode testemunhar a interrupção traumática de mandatos presidenciais. Antes de Jânio fora Getúlio Vargas, em 1954, que acabou por se suicidar em meio a seguidos escândalos de corrupção que a imprensa titulou de “mar de lama”. Nas duas ocasiões, Lacerda liderou obstinada oposição. Como jornalista no período de Getúlio e na condição de governador do então Estado da Guanabara com Jânio.

Em agosto de 1961, eu cursava o último ano da Academia Militar das Agulhas Negras, AMAN. Se por um lado o impacto da renúncia de Jânio não possa ser comparado à comoção nacional provocada pelo suicídio de Getúlio, os efeitos que se seguiram, em compensação, foram de longe mais importantes no futuro imediato do País. De fato, com a posse de Jango, contra a vontade dos ministros militares e como eles previam, a ameaça comunista adquiriu dimensão insuportável que desaguou no movimento de 1964, cujos princípios e modelo, para o bem e para o mal, viriam a prevalecer durante longos vinte anos.

Não tenho aqui a menor pretensão de ir além dos fatos já expostos e do modo como eles ficaram registrados na minha mente. Mesmo porque, nem mesmo os mais competentes historiadores, por incrível que pareça, conseguiram muito mais no meio século já decorrido, tal o insólito do episódio. Desejo, sim, falar das consequências para a minha turma de formação, que chega também às suas cinquenta e seis primaveras neste ano de 2017.

Apesar da tensão política que naqueles dias tomou conta do País, envolvendo diretamente a cúpula militar no complicado processo de sucessão de Jânio, não tivemos que lamentar qualquer acontecimento que pudesse caracterizar quebra da hierarquia e/ou da disciplina na Escola de Resende tal como viria a ocorrer em muitas outras guarnições militares. No Rio Grande do Sul, por exemplo, onde a crise atingiu o seu ápice, o Comandante do III Exército, general Machado Lopes, quebrou a unidade das FFAA ao se rebelar contra as orientações de seu ministro, aderindo ao governo Brizola na pregação em favor da posse imediata de Jango, então vice-presidente, portanto sucessor natural do presidente fujão. Hoje, de olho na perspectiva histórica, boa parte de nós reconhece que o comandante do Sul, com seu gesto, possivelmente tenha evitado uma guerra civil.

Para nós cadetes, no entanto, como disse antes, o que restava do ano de 1961 correu dentro de relativa normalidade, graças, sobretudo, à atuação dos nossos comandantes, aos quais já me referi em outro registro, dentre eles o então coronel Emílio Garrastazu Medici. Hoje percebo que com extrema habilidade e competência eles nos blindaram, este é o termo, em relação às graves questões políticas e institucionais que ameaçaram a Nação, dentre elas as discussões sobre a sucessão e novo regime de governo, a rejeição do alto-comando das Forças Armadas à figura do vice João Goulart, e a reação irada do governador Leonel Brizola respaldado pelo comando do III Exército, dentre outros segmentos fardados.

Ainda assim, as indefinições e incertezas daqueles dias, inevitavelmente, teriam que trazer consequências para os jovens formandos de 61. A nossa formatura, por exemplo, que normalmente se daria no começo do mês de dezembro, depois de alguns adiamentos, só pode ser realizada no penúltimo dia do ano, com todos os óbvios inconvenientes, inclusive para a vida acadêmica, e sem o testemunho de autoridades civis, àquela altura quase todas consideradas personas não gratas ao meio militar, a começar por João Goulart, então já empossado. Foi necessário ainda rever a distribuição das vagas destinadas aos aspirantes nas diversas guarnições espalhadas pelo território nacional; elas concentraram-se no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, os dois estados mais afetados pela crise e onde previam os chefes militares, ela evoluiria com mais intensidade nos anos seguintes. Assim foi. Então, doze dos cavalarianos/61, eu incluído, nos primeiros dias de janeiro do ano seguinte estavam prontos no Regimento Escola de Cavalaria, Regimento Andrade Neves. O 11º RC de Ponta Porã, minha primeira escolha, ficaria para mais tarde. E lá ainda viveríamos grandes emoções.

No Andrade Neves, entre 61 até 64, quando Jango caiu e instalou-se o regime militar, fomos partícipes de um período extremamente confuso, com o País em permanente convulsão, fácil antever-se uma próxima e necessária intervenção das FFAA, que de forma crescente passava a ser exigida pela sociedade. Nós, jovens oficiais, vivemos em função do preparo intensivo da tropa e em permanente prontidão nos quartéis. Foi a herança deixada pela dupla Jan/Jan, que o povo de forma equivocada levou ao Poder nas eleições de outubro de 1960.

Hoje, observando a marcha dos acontecimentos políticos, tenho dúvidas se chegamos a aprender as lições que a História nos ensinou.

 


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