A Nossa Morada

A NOSSA MORADA

Marcelo Crivella

Uma das mais antigas sentenças da filosofia é de Heráclito de Éfeso, que viveu entre os séculos VI e V antes de Cristo: “O ethos é a morada do homem.” Há grande sabedoria aí.

Todos os outros seres, existentes na natureza, apresentam comportamentos de espécie, repetitivos, limitados, com possibilidade quase nula de variações individuais. Portador de livre-arbítrio, o homem é o único ser que, ao nascer, pode viver mil vidas diferentes. Uma criança pode vir a ser Mozart, outra pode vir a ser Hitler; a criação de sinfonias e a perpetração de genocídios são possibilidades inscritas em nossa mais íntima constituição. Isso nos conduz ao problema da liberdade do homem.

Seres vocacionados para a liberdade são livres para se destruir. Por isso, como Heráclito viu, a existência dos homens só se torna viável quando eles se abrigam na “morada” do ethos – na ética. Nosso potencial criador precisa ser disciplinado para se exercer dentro de um espaço eticamente delimitado, socialmente legítimo, em que o certo e o errado, o bem e o mal estejam definidos com suficiente clareza.

Essas prescrições de valores variam no espaço e no tempo, mas precisam existir sempre, pois fora delas, fora da ética, o que se obtém é a anomia e a ruína. Isso vale para famílias, grupos e nações.

Há uma crise ética em curso no Brasil. Nos seus primeiros estágios, ela atinge pessoas, o que ainda não é especialmente grave, pois a democracia é o sistema político que nos permite substituir pessoas sem traumas e sem rupturas. Quando se agrava, ela atinge instituições, cuja reforma já é bem mais difícil. Se não for revertida, essa crise, ao chegar no seu último grau, pode ferir – e, no limite, inviabilizar – a própria ideia de Nação.

É difícil definir o que é uma Nação, tamanha a diversidade que elas apresentam. Uma coisa, porém, é certa: uma Nação existe enquanto os seus cidadãos compartilham valores fundamentais e reconhecem um futuro comum em construção. É uma comunidade de destino. O sistema de valores, sua base imaterial, é como se fosse o software, o programa que dá as instruções para que a base material, o hardware, funcione.

Não basta, pois, preservar os elementos físicos que constituem a Nação, se deixarmos degenerar os seus elementos ideológicos e morais. Por isso, nossa crise é grave.

Estou cumprindo o meu segundo mandato como senador pelo estado do Rio de Janeiro. Conheço bem o desgaste a que estão submetidas as nossas instituições políticas. Acompanho e participo dos debates em busca de regras melhores. Porém, permitam-me confessar: regras valem pouco, e sempre podem ser burladas, se não reconstruirmos objetivos comuns, na forma de um projeto nacional de desenvolvimento capaz de conquistar o imaginário do nosso povo e de mobilizá-lo. Esse, a meu ver, é o cimento que, hoje, maior falta nos faz. A Nação não é uma soma de partes, nem uma simples composição dos interesses da hora. Se ela se apequena dessa maneira, a política se apequena também. Nesse contexto, os comportamentos desviantes se alastram.

Quanto mais alta é a função que cada um de nós cumpre – sempre por delegação da sociedade, é bom não esquecer -, maior é nossa responsabilidade. Presidente, ministros, governadores, secretários, deputados, senadores, juízes, diplomatas, reitores de universidades, professores, comandantes militares, chefes de polícia – esses não podem falhar, pois o que fazemos, ou deixamos de fazer, tem grande efeito multiplicador, ao sinalizar comportamentos para os grupos que lideramos e, a partir deles, para toda a sociedade.

Dizer não a todas as formas de corrupção, no contexto de um novo projeto nacional, é a melhor maneira de construirmos um país que seja a morada digna – ética, nos termos de Heráclito – dos brasileiros.

 

Marcelo Crivella é senador da República pelo Estado do Rio de Janeiro.


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