A CONTRARREVOLUÇÃO DE 2015 E A REFORMA MORAL DO BRASIL

A CONTRARREVOLUÇÃO DE 2015 E A REFORMA MORAL DO BRASIL

João Ricardo Moderno

                A corrupção da República tem o mesmo sentido da corrupção dos mores civitatis na expressão do latim, a corrupção dos mores da cidade, da polis grega. Os costumes e hábitos morais considerados invioláveis e essenciais que identificam o caráter pessoal e as características de um povo estão sendo submetidos no Brasil de hoje a um processo intencional, sistêmico e progressivo de destruição. Em latim, corrupção significa primeiramente destruição. Ora, a corrupção governamental sistêmica destrói o Brasil. Um país moralmente destruído é presa fácil de grandes potências. O assunto é de segurança nacional. O crime organizado tomou conta de grande parte da República. O patriotismo acabou.

   A reconstrução moral do País necessita de um inteligentíssimo e multidisciplinar projeto estratégico fundado na realidade cultural brasileira, isto é, apoiado nos próprios mores tradicionais da nação que estão assentados no trabalho honesto, produtivo e humanista. As reformas econômica, política, educacional, cientítica, cultural e jurídica são insuficientes sem aquela que sustenta a todas: a reforma moral. Os governos no Brasil institucionalizaram o homo corruptus, expressão latina que revela que o problema é universal, mas que se referia ao indivíduo, e agora remete aos militantes de partidos de massa. O capitalismo de Estado brasileiro é a fonte segura do extrativismo cleptorepublicano.  Estatismo e comunismo são irmãos siameses. Até a China comunista é mais liberal que o Brasil no plano econômico, e tem uma estratégia de longo prazo que tem como base o patriotismo, razão do sucesso das últimas décadas.

      O patrimonialismo brasileiro teve um salto quantitativo e qualitativo com a construção de Brasília e a manutenção do mito, apesar da semente de soja e do gado não saberem que estão no Brasil central. Essa megalomania já deve ter custado trilhões de reais até 2015, segundo anteriores cálculos da FGV pelo pesquisador Ib Teixeira. A televisão integra muito mais o Brasil que Brasília, a única capital estatal no mundo, obviamente mantida pelo tesouro nacional. Para abrir estradas não precisamos construir uma capital federal, que necessita de grande poder simbólico naturalmente construído e historicamente sedimentado para representar a nação. Essa a regra universal. Samuel Wainer, em seu livro de memórias Minha razão de viver, Editora Record, revela que a corrupção com Brasília deu um salto histórico em razão da industrialização e grandes obras, e “esse tráfico de influências tornou-se particularmente intenso no Governo de Juscelino Kubitschek, durante o qual se consolidaram fortunas imensas. Negócios desse tipo não costumam deixar rastros, mas é fácil  deduzir que neste últimos anos foram captados alguns bilhões, repartidos entre empreiteiros e seus sócios na imprensa. Sempre que algum negócio me beneficiava, o dinheiro era integralmente aplicado na Última Hora. Nunca quis dinheiro para mim. Meus colegas pensavam diferente: eles colocavam nos próprios bolsos as verbas…”.

      O Brasil produziria um grande choque moral, econômico e político privatizando Brasília, cortando com gigantesca austeridade os oceanos de dinheiro público jogados no lixo no passado e no presente para manter um mito megalomaníaco perverso, e retornando a Capital Federal ao Rio de Janeiro, onde os custos seriam mínimos. A megalomania de Brasília é produto da mitomania da política brasileira.

    Samuel Wainer confessa que era também o mala de João Goulart, o Jango: “Alguns meses depois de assumir o cargo, Jango convocou-me para dizer que não tinha confiança no homem que encarregara de fazer a ligação do PTB, principal partido no esquema de sustentação ao governo, e os empreiteiros que financiavam o partido. O esquema era simples. Todas as concorrências vinham com as cartas marcadas, funcionavam como mera fachada. (…) Minha tarefa consistia em, tão logo se encerrasse a concorrência, recolher junto ao empreiteiro premiado a contribuição de praxe. Não aceitávamos cheques, o pagamento vinha em dinheiro vivo. Uma vez por mês, ou a cada dois meses, eu visitava os empreiteiros e recolhia suas doações, juntando montes de cédulas que encaminhava às mãos de João Goulart. Se não tivesse escrúpulo algum, eu poderia simplesmente ter subtraído parte dessa fortuna e colocá-la nos bolsos. (…) Eu poderia ter ficado multimilionário entre 1962 e 1964. Não fiquei.”

     A Revolução Comunista no Brasil visando um regime totalitário começou em 1935, e ainda não esgotou o seu ciclo histórico, redivivo com o eufemismo de Revolução Bolivariana, que somente fará uso das armas em sua fase final – sem novidade, tal como adotada por Jango -, pois valendo-se da estratégia de guerra de posição segundo a teoria de Gramsci, é necessário aderir ao sistema do Estado Democrático de Direito, e destruí-lo de dentro. Por isso, é preciso manter as aparências, ganhar eleições, dissimulando ao máximo as intenções, e colhendo resultados gramscianos gradativa e pacientemente, aproveitando essa demora no tempo para montar um vastíssimo campo criminoso organizado, reunindo forças políticas e dinheiro em escala astronômica para comprar pessoas, instituições, armas, documentos, máfias e abrir contas bancárias secretas no exterior. A confissão pública de Luiz Inácio Lula da Silva, que se apresenta como a autoridade suprema das Forças Paramilitares, apesar de termos uma presidente da República constitucionalmente empossada e sendo ela a autoridade suprema das Forças Armadas, claramente afirmando que ele pode dar ordens para João Pedro Stédile usar seu exército paramilitar, pode ser interpretada como um sinal que a fase final do processo gramsciano chegou inesperadamente, pois a Revolução Comunista se vê diante de variáveis não previstas, como o mensalão e o petrolão, e outras que ainda certamente emergirão.

         Forças paramilitares são indispensáveis na ortodoxia totalitária comunista, nazista e islâmica – assim como em quaisquer outras revoluções ideológicas -, pois as Forças Armadas nacionais não se prestam a esse papel no início do processo revolucionário, mas acabam por ser tragadas, desorganizadas e reordenadas pela lógica totalitária com o passar dos anos. Na lógica comunista atual, o Estado Democrático de Direito só é tolerado enquanto ele produzir os resultados estrategicamente planejados. As surpresas políticas levam os líderes ao desespero e a alterarem o roteiro, e até mesmo antecipando etapas. O Brasil contemporâneo não faz parte do Ocidente político e ideológico, daí a desconfiança da comunidade internacional dos Estados democráticos, como EUA, Canadá, União Europeia, Japão, Austrália, Coreia do Sul e outros.

          A Contrarrevolução Brasileira de 2015 destina-se a resgatar os fundamentos da República, da liberdade, do Estado Democrático de Direito, e a respeitar a Constituição Federal, fazendo o Brasil retornar ao Ocidente, implantar definitivamente uma economia liberal, criando as condições para impedir quaisquer regimes totalitários no Brasil, de quaisquer ideologias. No Brasil, em verdade, temos não um capitalismo de Estado, mas uma cleptocracia de Estado, uma República cleptocrática. É preciso retornar à simplicidade e à humildade do cidadão e da cidadã do Brasil profundo, que ganham a vida com muito esforço, educam seus filhos com extrema dedicação e vivem honradamente. O povo brasileiro ama a honestidade, e anseia por governantes com dignidade, à altura da alta moralidade brasileira. Não podemos decepcioná-los, pois seria permitir a total desintegração do País. As Forças Armadas Brasileiras terão um papel decisivo nesse processo, pois elas permanecem liderando como as mais respeitadas, amadas e idolatradas pelo povo brasileiro, apesar do massacre do assédio moral a que foram submetidas pelos sucessivos governos. Elas garantirão a sustentabilidade perene do Estado Democrático de Direito, conforme a Constituição Federal.

 

 

João Ricardo Moderno é Presidente da Academia Brasileira de Filosofia. Doutor de Estado em Filosofia – Letras e Ciências Humanas pela Université de Paris I – Panthéon – Sorbonne.


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