O Fim da Moralidade – Heitor De Paola

O FIM DA MORALIDADE

Heitor De Paola

 

Os princípios da nova civilização podem-se resumir em três enunciados: 1) toda proibição é proibida; 2) toda repressão deve ser reprimida; 3) a única verdade é que não existe verdade.

R. R. RENO, citado por OLAVO DE CARVALHO [1]

‘…só pode existir liberdade num “espaço entre muros”, sendo esses muros a moralidade e a lei nela baseada. É razoável argumentar qual a distância entre os muros pode ser aceita, mas é suicídio cultural exigir todo o espaço e a derrubada dos muros’

ROBERT H. BORK [2]

O fato de o Clube Militar lançar uma “Campanha pela Moralidade”, para a qual me honraram com o convite para participar, significa que o diagnóstico já está feito e todos que aceitamos participar estamos, em princípio, de acordo. Podemos, portanto, eliminar esta etapa e passarmos à investigação das origens e características desta queda dos princípios morais num precipício sem fundo visível e especular sobre o futuro. E como sabemos, a moralidade anda em ordem unida com a ética, a honestidade, a fidelidade, o respeito pelos outros principalmente os pais, cônjuges e filhos, a gratidão, a tolerância com as frustrações inevitáveis da vida. O que resta? O ódio, a perfídia, a inveja, a traição, a arrogância, o narcisismo destrutivo, toda a plêiade de assombrações demoníacas que faz com que o afundamento seja mais rápido e profundo em direção ao caos. Como diz a tosca, mas verdadeira sabedoria popular: fica como o diabo gosta!

Do convite consta uma série de sintomas que justificam o diagnóstico, embora o limitem ao Brasil – corrupção em todos os níveis, encarada de forma normal; irresponsável busca de atingir interesses pessoais, sobrepujando, em quase todas as ocasiões, o interesse da coletividade; os fins justificando os meios; injustificável desconhecimento do que acontece nas respectivas áreas de responsabilidade; o pensamento do “gosto de levar vantagem em tudo”; os direitos das minorias sobrepujando o direito da maioria; e a imposição do politicamente correto em detrimento do livre pensar e falar. Sugere-se “elencar medidas que, a curto e médio prazo, corrijam estas distorções”. Lamentavelmente o mal já está enraizado e há mais de um século, vem crescendo às vezes de forma sutil, outras vezes com picos de febre que deveriam servir de alerta, mas geralmente são descartados quando a temperatura baixa levando a acreditar numa ilusória cura.

A uma visão superficial a queda em direção a Sodoma e Gomorra parece ter ocorrido espontaneamente, acontecendo sem sabermos bem como e por que. Mas há males mais profundos que exigem estudo especializado para enxergar. A referência bíblica não está deslocada, pois reside nas profundezas desta situação uma total dessacralização do mundo. Nada mais é sagrado, nem os espaços religiosos, nem os de cunho pessoal, o lar, o seio da família, local antes privilegiado, hoje desatinado.  Eliade[3] nos fala do tempo e dos locais profanos e sagrados. Para os primeiros existe uma homogeneidade espaço-temporal: tudo se segue sem rupturas; para os últimos existe uma ruptura e sugere como exemplo, já que vivemos num mundo predominantemente Cristão, uma Igreja numa cidade moderna. “Para um crente, esta Igreja participa de um espaço diferente da rua onde ela se encontra. A porta que se abre para seu interior representa o limiar, uma solução de continuidade e a distância entre dois modos de ser, profano e religioso. O próprio tempo parece parar para quem cruza este limiar, principalmente se for durante uma Missa”.

“Uma função ritual análoga é transferida para o limiar das habitações humanas: o lar, lugar de respeito e convivência. Os homens modernos não percebem como os antigos, mas é assim que se passam as coisas”.

Hoje as Igrejas são invadidas por “femen”, transexuais, gays e hordas de bárbaros que sobem nos altares para destruírem os ritos e imagens; o lar é invadido pela pornografia televisiva, por um falso liberalismo entre os cônjuges, pela facilitação do divórcio e do aborto. Já se ouve falar termos esdrúxulos como “namorido”, um amálgama estúpido de namorado/marido e muitas vezes os “casais” resolvem sequer formar um lar, morando cada um em sua casa, a união sendo apenas para satisfações sexuais e hedonistas. A liberdade de expressão é violada por escabrosas e asquerosas charges sobre tudo que tem merecido respeito daqueles que conhecem o ponto de ruptura entre o sagrado e o profano (vide Charlie Hebdo).

Mais profundamente, portanto, o âmago da doença, dificilmente atingido por quem não tem conhecimento especializado é a abolição da diferença entre o bem e o mal. Já em 1919, em plena euforia que tomou conta do mundo pelo fim da “Grande Guerra”, um poeta percebia o que estava por vir. William Butler Yeats escrevia o poema Second Coming, em que uma das estrofes afirmava

Turning and turning in the widening gyre

The falcon cannot hear the falconer;

Things fall apart; the centre cannot hold;

Mere anarchy is loosed upon the world,

The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere

The ceremony of innocence is drowned;

The best lack all conviction, while the worst

Are full of passionate intensity.[4]

Lembremos que em 17 os Bolchevistas tomaram o poder, em 19 Hitler reunia seus primeiros aliados, o que veio a ser conhecido mais tarde por Alter Kämpfer (Velhos Combatentes), a República de Weimar transformava a Alemanha numa das sociedades mais pervertidas e imorais da história. Em 22, Mussolini e seus Fasci di Combatimento faziam a Marcia su Roma. Na América os “Roaring 20’s”, o domínio da Máfia e do liberalismo moral desenfreado. No Brasil, como em vários países do ocidente, fundava-se o Partido Comunista e o “ouro de Moscou” financiava a palhaçada conhecida como “semana de arte moderna”. Ia-se a arte pelo ralo, que culminou nas desastrosas Bienais, onde predomina a barbárie, a irreverência total e a imbecilidade. Na última produziu-se um manifesto pedindo ao Papa a “abolição do pecado” como se este não existisse, fosse apenas uma invenção repressiva Judaico-Cristã. Não existe o bem nem o mal, é pura invenção religiosa para reprimir a “liberdade” dos indivíduos. Não custa para lançarem um movimento: “Abaixo os Dez Mandamentos, instrumento de dominação e preconceito; abaixo os Evangelhos”. Abaixo tudo, parece ser o moto da época. “Nada deve ser proibido, nem reprimido, a verdade não existe”.  Como disse o Führer: “A verdade não tem valor enquanto houver a ausência de vontade indomável de transformar essa percepção em ação!”.

“Os melhores perdem toda convicção, enquanto os piores estão plenos de apaixonada intensidade”.  Yeats percebia que o fim da guerra liberava os demônios que, insatisfeitos com o fim do conflito, voltavam-se para dominar a paz. É daqui que devemos começar nossa investigação.

 

OS ALVOS DA NOVA GUERRA PARA MUDAR O MUNDO: OS JOVENS. A ESTRATÉGIA: ABOLIR A RELIGIÃO, UNIR EDUCAÇÃO E PSICOLOGIA

Recuando a 1762, Jean-Jacques Rousseau publicava Emile, ou Da Educação, nas suas palavras “a melhor e mais importante de todas minhas obras”, que teve grande influência nas reformas educacionais da Revolução de 1789, no qual defendia uma educação permissiva “centrada nas crianças” na qual o educador deveria evitar disciplina estrita e lições maçantes e desinteressantes. Juntamente com Johann Heinrich Pestalozzi acreditava que a “criança-total” deveria ser educada através da ação e que a religião não deveria ser um princípio norteador no processo, tema, aliás, ainda atual quando se atribui ao Estado educar de forma laica.

No entanto, Rousseau abandonou seus cinco filhos sem sequer dar-lhes nomes, entregando-os a um Hospital de Crianças Encontradas. Hume e Voltaire consideravam-no um perigoso deliqüente. Emile é uma obra hipócrita, pois tudo que defendeu depois foi a educação das crianças pelo Estado: (Ao transferir suas reponsabilidades para o Estado) “percebi que estava representando o papel de um cidadão e um pai, e me via um membro da República de Platão”[5]. Rousseau pode ser considerado o precursor moderno da ideologia que passou a tomar vulto na história da humanidade: o Estado seria o pai, a patrie, e todos os cidadãos seriam os filhos do orfanato estatal “paterno”. Sua influência chegou até ao hino nacional francês – Allons enfants de la Patrie – refundando um conceito de Pátria greco-romano que  os anglo saxões já estavam superando[6].

O abandono da educação religiosa, o rebaixamento da filosofia e da ética e suas graves consequências sociais, são temas entrelaçados. Obviamente havia uma “opção preferencial pelas crianças”, na “ânsia desmedida de tirar proveito da mais dócil, indefesa e numerosa massa de manobra que um demagogo poderia desejar”.  (Apud Olavo de Carvalho)

No início do século vinte as escolas americanas que antes ensinavam o sonho americano se tornaram infestadas por drogas e crimes e estudantes secundários quase se graduando mal sabiam ler, soletrar e realizar cálculos aritméticos simples. Fenômenos que encontramos hoje no Brasil já ocorriam há mais de um século por lá. Na época a Alemanha liderava os estudos sobre educação, destacando-se o nome de Wilhelm Maximilian Wundt com o qual estudaram G. Stanley Hall e, principalmente, John Dewey[7].

Segundo Dewey, um socialista Fabiano considerado um dos maiores educadores americanos, e muito influente em todo mundo, “o supremo problema de toda educação é coordenar os fatores psicológicos e sociais”. A coordenação exige que a criança seja capaz de se expressar, mas de tal maneira que possibilite a realização de sua finalidade social. (…) Segundo as diretrizes de Wundt a redefinição de educação leva à abdicação do papel do professor como educador, transformando-o num guia na socialização da criança, levando cada jovem a se adaptar a um comportamento específico exigido dele para “se integrar ao grupo”. Desde o começo da Civilização Ocidental o curriculum escolar estava centrado no desenvolvimento das capacidades acadêmicas, nas faculdades intelectuais e na alta literatura. Dewey queria mudar isso, e conseguiu até mesmo indiretamente aqui no Brasil porque estas capacidades produzem aquela forma abominável de inteligência que Dewey acreditava ser antissocial.

Os discípulos de Dewey conduziram escolas de formação de professores, sendo a principal o Teachers College, financiado por John D. Rockfeller. Harold Rugg, um dos mais influentes, escreveu:

“…através das escolas do mundo disseminaremos uma nova forma de governo, que englobará todas as atividades coletivas dos homens; que postulará a necessidade de controle científico e operação das atividades econômicas dirigidas ao interesse do povo”.

A combinação de educação com psicologia é um elemento explosivo, que levou a uma das mais diabólicas “profissões” jamais inventadas: a psicopedagogia. Quando se diz que o professor funciona como um investigador para saber o que há de errado, tendo o acompanhamento do psicólogo na busca de “soluções”, a escola se transforma em agente terapêutico e abandona sua função principal: educar. Instaura-se o mundo maquiavélico da “psicopedagogia”, o pior dos mundos para crianças e famílias!

 

ENQUANTO ISTO, DO OUTRO LADO DO ATLÂNTICO

Uma pessoa resumia em si mesma as duas especialidades. Maria Montessori, psiquiatra a educadora, surgia como o suprassumo da educação e até hoje seu método “construcionista” é largamente usado entre nós.

Montessori criou as Casa dei Bambini na Itália em 1907, foi recebida com honras nos EUA em 1913 e foi para Barcelona em 1916, dizem alguns para evitar que seu marido fosse convocado para a I Guerra Mundial. Em 1920 saiu a III Edição de seu Il Metodo della Pedagogia Scientifica e Maria começa a retomar contatos com sua terra natal. As referências mais explícitas mencionam que ela retornou à Itália em 1922, foi nomeada inspetora geral das escolas fascistas. A verdade é que voltou para seu país exatamente por apoiar Mussolini no exato ano em que ele era nomeado Presidente do Conselho do Reino. Inicialmente proferiu uma série de conferências em Nápoles a convite do então Ministro Antonio Anile. Um ano após Giovanni Gentile[8] é nomeado Ministro e, influenciado pela Rainha-Mãe, Margherita de Saboia, demonstra interesse em colaborar com Montessori e disseminar seu método pedagógico por todo o país. Mussolini se interessou muitíssimo pelo método pedagógico considerado promissor para ser incorporado ao sistema escolástico da Reforma Gentile. Em abril de 1924 a Societá Amici del Método se torna a Opera Nazionale Montessori, fundação criada por decreto real, presidida por Gentile com Maria Montessori como Presidente de Honra. Mussolini autorizou Gentile a estruturar um curso montessoriano para professores em Milão. Cento e cinqüenta alunos assistiram às aulas de Montessori, 60 por ordem direta de Gentile. Mussolini era o Presidente de Honra do curso.

Em 1926 Mussolini é escolhido Presidente da Opera e Gentile passa a Diretor dos escritórios de Roma. O Duce provê com fundos estatais as escolas que seguissem o método, contribuindo com 10.000 Liras de seu próprio bolso. Já em 1925, ano em que Maria se tornou membro honorário do Partido Fascista, Mussolini dizia que “pessoas que objetassem ao método montessoriano eram todos ignorantes” e “recomendou o método a outros ditadores”. No mesmo ano foi estabelecida em Roma uma escola montessoriana de preparação de professores, a Scuola Magistrale Montessori, e o Ministro Gentile anunciou que este era o próprio método fascista de ensino. Neste ano (1926) foi fundada a Opera Nazionale Balilla, responsável pela educação política e física das crianças em curso primário. A partir de 1929 Montessori passou a controlar todo o sistema de ensino fascista[9].

O construtivismo não passa de uma falácia. Foi e continua sendo um meio fértil para a introdução das ideologias coletivistas, ambientalistas e a preparação, entre outras coisas, de um mundo de pensamento uniformizado, um mundo de crianças robotizadas a serviço de qualquer totalitarismo. Pois o tal ambiente preparado pode ser preparado para qualquer coisa e utiliza-se a noção de autoconstrução para esvaziar a mente dos alunos dos valores que traz de casa e “construir os seus”. Ora, isto é uma impossibilidade, a criança aprende inicialmente imitando, só posteriormente irá fazendo suas próprias opções e criando outras. O que ocorre é uma verdadeira lavagem cerebral, bem ao gosto dos sistemas totalitários. Pode-se, então, introduzir qualquer coisa como se fosse “construção” ou “criação” da própria criança, aumentando falsamente o sentimento de onipotência. Nada mais eficaz do que o doutrinado acreditar que inventou a doutrina. Foi aí que o Duce encontrou a verdadeira utilização do método montessoriano!

O método não é, portanto construtivista, mas desconstrutivista: é preciso “desconstruir” tudo que já está na mente infantil, para deixar a criança inerme nas mãos de professores os quais, ao invés da admitir que ensinam o que bem entendem, fingem que a criança está autoconstruindo seu conhecimento. Com isto eliminam-se todos os valores universais, estimula-se a onipotência da criança para torná-la uma humanista – o homem é o centro de todas as coisas, nada lhe transcende ou lhe é superior – que acredita que não existem conhecimentos universais, mas todos são suas criações.

A edição de suas obras ficou a cargo da Sociedade Teosófica [10], fundada por um grupo dos maiores escroques do século: Yelena Pietrovna Blavatsty, Alice Bailey, Annie Bésant, Charles Leadbetter, Henrt Steel Olcott e outros. Não por coincidência o nome da Editora era Lúcifer, posteriormente Lucis. Em sua Education for a New World Montessori escreveu: “O mundo não foi criado para que o aproveitemos, mas fomos criados para evoluir o cosmos”. Num número do North American Montessori Teachers Association Journal encontramos que Montessori profetizava nada menos do que uma nova cultura humana. Esta nova cultura global, planetária, humanista seria a base de uma nova consciência da unidade e interdependência de todos os seres, a interconexão de todas as formas de energia e matéria. Haverá uma mudança de paradigma para alinhar-nos para educar o potencial humano dirigido a uma cooperação consciente com a evolução da vida no planeta.

 

UM SALTO NO TEMPO: A CONEXÃO NEURO-PSIQUIÁTRICA DO PÓS II GUERRA E AS NAÇÕES UNIDAS[11]

Em 1946 o General George Brock Chisholm, M.D., General do Exército e Psiquiatra canadense, apresentou na The William Alanson White Memorial Lectures uma conferência intitulada “The Psychiatry of Enduring Peace and Social Progress”. Dois anos depois sua mensagem foi publicada na prestigiosa revista Psychiatry, e por seu amigo comunista Alger Hiss, editor da revista socialista International Conciliation com o título de “The Re-establishment of a Peacetime Society” prefaciada pelo próprio Hiss. Alger Hiss presidiu em 1945 a Assembleia de fundação das Nações Unidas, onde se mostrou fiel sabujo de Stalin, com o total conhecimento de Roosevelt, inclusive redigindo a Declaração Universal dos Direito do Homem, uma extraordinária peça de dominação travestida de direitos e liberdade. Não por acaso, certamente, Chisholm foi o primeiro Diretor Geral e organizador da Organização Mundial de Saúde.

Alguns trechos selecionados desta conferência podem dar ao leitor como nossas crianças têm sido educadas. Não esqueçam que a OMS forma um par indivisível com a UNESCO, que controla nossa educação [12]:

 

“O único denominador comum de todas as civilizações e a única força psicológica capaz de produzir todas as perversões é a moralidade, o conceito de certo e errado, o veneno já descrito desde o início dos tempos: “os frutos da árvore do conhecimento do bem e do mal”. Por muitas gerações curvamos nosso pescoço à canga da convicção na existência de pecado. Engolimos todos os tipos de certezas venenosas com que nossos pais, os professores das escolas dominicais e comuns, os políticos, os padres, os jornais nos alimentaram, com o interesse dissimulado de nos controlar”.

“Produzir uma geração de cidadãos maduros é a tarefa maior e mais necessária que qualquer país pode empreender. A reinterpretação e erradicação final dos conceitos de certo e errado, que tem sido a base da formação das crianças e a substituição da fé nas certezas dos mais velhos pelo pensamento racional, são os objetivos de praticamente toda psicoterapia efetiva (e educação). (…) Não seria mais sensível parar de impor às crianças nossos preconceitos e fé e mostrar a elas todos os lados da questão de tal maneira que eles desenvolvam a capacidade de dimensionar as coisas por si mesmas e tomar as suas próprias decisões?”

“Ao sugerimos que devemos parar de ensinarmos moralidade e o veneno do certo/errado, ao invés de proteger sua integridade intelectual original somos tratados como hereges e iconoclastas, tal como Galileu foi tratado por descobrir outros planetas. O pretexto é de que abandonar totalmente os conceitos de certo e errado produziria pessoas não civilizadas, imoralidade, ausência de lei e caos social. Mas o que ocorreria seria tomarmos o poder sobre nosso destino, gentilmente pondo de lado as maneiras erradas dos mais velhos, se isto for possível. Se não for possível de forma gentil, deverá ser feito de forma grosseira ou até mesmo violenta, como já ocorreu antes”.

As sugestões de Chisholm contém a essência da revolução cultural neo-Marxista dos anos 60. Embora muitos perguntem se a abolição dos conceitos do bem e do mal, do certo e do errado não privaria a humanidade de toda a base da Civilização, elas foram apoiadas pelos mais altos níveis da política mundial e regiamente financiadas pelas Fundações globalistas.

 

A CONTRACULTURA DOS ANOS 60

Ao analisarmos a conturbada década de 60 é preciso ter em consideração outras influências que se somaram às já mencionadas: as obras de Antonio Gramsci e as da Escola de Frankfurt. Ambas têm sido amplamente estudadas entre nós. A obra clássica sobre Gramsci no Brasil é a o livro do General Sérgio Augusto de Avellar Coutinho A Revolução Gramscista no Ocidente, que creio ser bastante conhecida por sua brilhante atuação como Diretor Cultural deste Clube. A obra já clássica de Olavo de Carvalho, A Nova Era e a Revolução Cultural: Fritjof Capra e Antonio Gramsci é também referência obrigatória.

O termo Escola de Frankfurt se aplica indiferentemente a um grupo de soi-disánt intelectuais do Institut für Sozialforschung (Instituto de Pesquisas Sociais) como a uma teoria social e cultural específica: a Teoria Crítica da sociedade capitalista. O significado desta expressão é definido por Max Horkheimer, seu principal Diretor em sua obra Dämmerung (Crepúsculo): “Um milionário ou até sua mulher podem dar-se o luxo de ter um caráter muito reto e nobre, podem adquirir todas as amáveis qualidades que se possa imaginar. O pequeno industrial está em desvantagem. Em sua própria pessoa há necessariamente traços de explorador, senão ele não poderia sobreviver. Este handicap moral cresce à medida que a função ocupada no processo diminui de importância. A inteligência e todas as capacidades se desenvolvem mais facilmente quanto mais elevado for o padrão de vida. Isto não vale apenas para as competências sociais, mas também para o resto das qualidades do indivíduo”.

Note-se que as qualidades de bem ou mal, de certo ou errado são “socialmente determinadas”, portanto inexistentes por si mesmas.

Com a ascensão de Hitler em 1933 a escola se transfere para Genebra, depois Paris e finalmente New York, afiliada à Columbia University e à California, na Berkeley University.  Um dos livros de Herbert Marcuse, um de seus expoentes, tornou-se a Bíblia dos estudantes rebeldes da década: Eros and Civilization, onde a repressão é a essência da sociedade burguesa. No mundo criado por Marcuse “cada um pode fazer o que bem entender, não haverá mais trabalho, somente diversão”. Marcuse foi o inventor da frase “faça amor, não faça a guerra” explorando a oposição à Guerra do Vietnam. Este é o germe da defesa da satisfação de todos os desejos, mesmo os considerados pelo homem comum, como perversos, por exemplo a pedofilia (o “direito sexual da crianças”). Para a Escola de Frankfurt “os valores universais são autoritariamente impostos e transmitidos pela família tradicional e as religiões”. Não existem por si mesmos, são apenas subprodutos da dominação das classes conservadoras.

Os “ensinamentos” destas correntes dominadas pelo marxismo cultural não diferem do que vínhamos investigando: a abolição dos conceitos do bem e do mal, do certo e do errado[13].  Esta abolição só poderá ser conseguida através da destruição de todo o conhecimento milenar transmitido pelas religiões e a instalação definitiva e completa do relativismo moral.

Não matarás, desde que não seja um feto em sua barriga porque seu corpo é seu direito; não roubarás, desde que seja dos ricos para os pobres, ou para o partido dos pobres; todo cidadão honesto é um “zé mané” enquanto os espertos, que levam vantagem em tudo, são “malandros”, espertalhões; e por aí vai!

 

 

CIVILIZAÇÃO E RELIGIÃO

O Padre Leonel Franca, s.j., em sua obra clássica A Crise do Mundo Moderno, começa com os seguintes dizeres: “Após as esperanças ilusórias do século XIX, a decepção dos nossos dias. A geração de ontem foi embalada com os idílios de um otimismo confiante e satisfeito, a fé na nossa civilização era inabalável”. Esta crença inabalável na ciência acabou afastando o Cristianismo como um inconveniente obstáculo à fé na razão, a nova deusa. “A sua maior influência é doutrinária. A averiguação do fato, sucede a questão de direito; a conexão contingente dos acontecimentos, a relação necessárias das ideias.  (…) O Cristianismo não nos trouxe um formulário prático de metodologia científica, mas transfigurou radicalmente a nossa concepção de natureza, tornando possível a ciência moderna”.

O abandono da herança Cristã começa a pairar a emaça de uma catástrofe de proporções inauditas. “O dia em visse a faltar esta força de conservação, este fundo religioso, assistiríamos ao declínio de toda cultura científica, ao descaso de sua consciência rigorosa, ao arrefecimento de sua generosa aspiração para a verdade, ao embotamento do senso de suas responsabilidades, ao mesmo tempo a técnica requintada de nosso trabalho científico ficaria entregue às mais perniciosas influências dos interesses temporais e dos instintos”.

Uma sociedade que perdeu sua religião é, cedo ou tarde, uma sociedade que perdeu sua cultura. Começamos apenas a compreender quanto a vitalidade de uma sociedade se acha íntima e profundamente ligada à sua religião. É o impulso religioso que dá a força de coesão necessária a uma sociedade ou cultura. Não são as grandes civilizações que produzem as grandes religiões como uma espécie de subproduto cultural. Na realidade e em todo rigor do termo são as grandes religiões que constituem os fundamentos sobre os quais se elevam as grandes civilizações[14].

Na vida pública os valores tradicionais de honestidade, lealdade e fidelidade são substituídas pela esperteza e a malandragem. Como antevia Yeats “Os melhores perdem toda convicção, enquanto os piores estão plenos de apaixonada intensidade”.

Não é exatamente isto que está acontecendo entre nós? O que fazer para inverter esta situação, para que os melhores retomem a convicção que perderam? Não vejo resposta a curto ou médio prazo.

 

Heitor De Paola é médico, comentarista político nacional e internacional. Site www.heitordepaola.com. Colunista do Jornal Mídia Sem Máscara e apresentador do programa O Outro Lado da Notícia da radiovox.org

 

 


[1] O Segredo da invasão Islâmica, Mídia Sem Máscara (versão impressa), Ano 1, Nº 1

[2] Slouching Towards Gomorrah: Modern Liberalism and American Decline, Harper Perennial

[3] Mircea Eliade, O Sagrado e o Profano: A Essência das Religiões, Ed. Livros do Brasil, Lisboa

[4] (Tentativa amadorística de tradução livre):

Girando e girando num redemoinho cada vez mais amplo

O falcão não pode ouvir o falcoeiro

Tudo desmorona; o centro não consegue manter o rumo

Extrema anarquia toma conta do mundo

A maré de sangue escoa por toda parte

A cerimônia da inocência se afoga

Os melhores perdem toda convicção

Enquanto os piores estão plenos de apaixonada intensidade

 

[5] Paul Jonhson,  Os Intelectuais

[6] Fustel de Coulanges, La Cité antique. Ver tb. Juan Bautista Alberdi, A onipotência do Estado é a negação da Liberdade Individual, trad.: http://www.heitordepaola.com/publicacoes_materia.asp?id_artigo=2210

[7] Cf. Paolo Lionni, The Leipzig Connection: The Systematic Destruction of American Education, Basics in Education, Heron Books

[9] Uma abordagem sobre Montessori está em La Nuova Scola Fascista e ss., de minha autoria em http://www.heitordepaola.com/publicacoes_materia.asp?id_artigo=3029

[11] Um estudo cronológico essencial é o de Charlotte Thomson Iserbyt, The Deliberate Dumbing Down of America, disponível em .pdf em http://www.deliberatedumbingdown.com/MomsPDFs/DDDoA.sml.pdf

[12] O idealizador e primeiro Diretor da UNESCO, que controla nossas escolas e currículos, foi Robert Müller, também ligado a Alice Bailey e à Sociedade Teosófica. Ver no meu livro O Eixo do Mal Latino-Americano e a Nova Ordem Mundial. Ler também Brave New Schools, de Berit Kjos, e   http://heitordepaola.com/publicacoes_materia.asp?id_artigo=99

[13] Para um entendimento da devastação cultural nos Estados Unidos é recomendável o livro de Tammy Bruce, The Death of Right and Wrong, Prima Forum:2003

[14] Christopher Dawson, Progress and Religion: an Historical Enquiry


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