CIA, Geisel. POR QUE LOGO AGORA? – CORREIO BRASILIENSE

CIA, Geisel. Por que logo agora?

22 de maio de 2018

FÁBIO P. DOYLE

Jornalista

Membro da Academia Mineira de Letras

O tema é velho. E revelho, como se dizia no tempo de nossos antepassados. Mas está sempre ressurgindo e sempre ressurge da mesma forma, pelos mesmos que dele fazem uso para alcançar objetivos quase sempre condenáveis. Estou me referindo ao movimento popular-militar chamado pelos derrotados de “golpe” e pelos vencedores de “revolução”, movimento que mudou a história do nosso país em 1964 e nos anos seguintes até 1984.

Para melhor, segundo uns; para pior, como querem outros. Mais uma vez, monotonamente, o assunto volta às manchetes. Agora, buscando novos ângulos, novos enfoques, versões diferentes. O pesquisador Matias Spektor, da FGV, ligado ao meio universitário do Rio de Janeiro, majoritariamente de tendência esquerdistamarxista-petista-lulista, anunciou ter encontrado, entre as páginas desorganizadas de documentos encontrados e xerocados por ele nos arquivos ultrassecretos da CIA, a central norte-americana de inteligência, a transcrição parcial de uma conversa entre quatro generais brasileiros, líderes do referido “movimento” ou “golpe”. Na conversa, um dos generais, o presidente Ernesto Geisel, um dos mais respeitados por sua corporação e pela população, teria aprovado e recomendado a tortura de prisioneiros perigosos para obter confissões e como punição. Os outros generais eram João Baptista Figueiredo, chefe do SNI, Milton Tavares de Souza e Confúcio Danton de Paula Avelino, da Inteligência do Exército. 

Pronto. O tema ressurgiu com o sensacionalismo esperado e com a repercussão que a esquerda, naturalmente feliz, logo promoveu. Se verdadeira, a revelação jogaria no lixo da história dos anos 64-85, o altíssimo conceito de moderado, ponderado, equilibrado e de democrata do presidente Geisel, um dos responsáveis, junto com outro general e ex-presidente, João Baptista Figueiredo, pelo fim do regime militar em 1984, com o restabelecimento da democracia. Mas é fácil, assim, criar versões de um fato tão antigo e, com elas, demolir reputações consagradas? Não seria mais prudente analisar, aprofundar uma pesquisa isenta capaz de comprovar (ou desmentir) o que se divulgou tão apressadamente? Pois muitas dúvidas e indagações surgem do que se difundiu de forma tão açodada. Basta pensar um pouco para listar algumas das indagações e dúvidas. Os que quiserem e puderam respondam. Data do documento da CIA, xerocado pelo pesquisador brasileiro: 11 de abril de 1974. Ou seja, há 44 anos. Segundo consta, foi liberado para pesquisas exceto em alguns trechos, mantidos secretos, em 2014. O brasileiro, depois da liberação, foi a Washington, sede da CIA, em missão de pesquisa, xerocou várias páginas e documentos sobre aquele período de nossa história. 

Entre os copiados, estaria aquele, o do encontro dos quatro generais. Pelo que informou, só agora, revendo as cópias, descobriu a da conversa a quatro dos generais. Estranho esquecimento pela importância do achado. Mais estranho o momento escolhido para a divulgação, exatamente na semana em que institutos de pesquisas confirmavam a posição de liderança do candidato militar, Jair Bolsonaro (não é o meu, esclareço), na disputa da Presidência da República. Seria apenas coincidência? Ainda: como explicar a possibilidade de um agente da CIA se infiltrar em área reservada e fechada do governo para gravar conversa particular, íntima, certamente sigilosa, dos quatro generais mais poderosos e visados do regime e do país? Quem era o agente? Teria sido um dos generais o informante? A CIA merece crédito? Desmoralizada mundialmente desde o episódio das armas químicas, biológicas, atômicas nunca encontradas, o que levou os EUA a invadir o Iraque, depor e enforcar o pobre Saddam Hussein, provocar a morte de 5 mil marines e de milhares de inocentes iraquianos. A agência nunca se livrou da desmoralização, ampliada agora no governo Trump. Como dar credibilidade a uma gravação, se existe mesmo, tão mal explicada por uma central de inteligência tão desacreditada? São indagações válidas que precisam ser esclarecidas, sem juízo de valor ou de mérito, apenas a bem da verdade, da tranquilidade do país e do respeito à honorabilidade pessoal de seus homens públicos.

 


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