Democracia em Perigo

No início da década de 60, elementos radicais tentaram, mais uma vez, envolver o Clube Militar na política. A indicação do Marechal Henrique Dufles Teixeira Lott, Ministro da Guerra de Kubitschek, como candidato presidencial da coligação PSD-PTB, serviu para encorajar o grupo radical, que pretendia explorar o prestígio do Clube Militar na campanha eleitoral, ao mesmo tempo em que atacava seu oponente, Jânio Quadros, a quem taxavam de “entreguista”.

Os líderes da Cruzada Democrática protestaram contra o uso dos recursos e das instalações do Clube Militar pelos radicais, e o Presidente, General Justino Alves Bastos, afirmava que o envolvimento do Clube na campanha contrariava suas instruções.

Sempre contra as instruções do presidente, os radicais decidiram enviar uma mensagem ao Presidente da República (Jânio Quadros, já eleito e empossado), em nome do Clube, elogiando-o por suas “atitudes nacionalistas”. O Gen Justino foi chamado por Jânio a Brasília, para explicar a mensagem, e aproveitou o convite para conseguir o apoio presidencial a um expurgo no Clube, que foi obtido com a transferência de muitos dos líderes radicais para guarnições distantes do Rio de Janeiro, restabelecendo-se a calma no Clube Militar.

A surpreendente renúncia de Jânio, em 25 de agosto de 1961, estando ausente o Vice-Presidente João Goulart – em visita oficial à URSS e à China –resultou na posse do Presidente da Câmara dos Deputados, Rainieri Mazzili. O país viveu, a partir daí, uma rápida sucessão de momentos dramáticos.

Os ministros militares julgaram conveniente desaconselhar o regresso imediato de Goulart ao Brasil. Em reunião no Palácio do Planalto, em 28 de agosto, manifestaram esse ponto de vista ao Presidente Mazzili, sugerindo-lhe comunicá-lo ao Poder Legislativo, o que foi feito no mesmo dia.

Goulart, em sua viagem de retorno, chegara a Paris no dia 27, e ali deveria entender-se com a Comissão Mista Parlamentar incumbida de examinar o veto dos ministros militares e o seu regresso ao país.

Por outro lado, o comandante do III Exército – com sede em Porto Alegre – General José Machado Lopes, distribuiu nota à imprensa afirmando que a corporação militar a ele subordinada saberia manter a ordem legal e a defesa das instituições.

Enquanto isso, o ex-Presidente Jânio Quadros embarcava, a 29, no porto de Santos, com destino à Inglaterra.

Os ministros militares divulgaram um manifesto à Nação, justificando o veto declarado à posse de Goulart.

Este se demorava na volta ao Brasil, permanecendo na Argentina e no Uruguai, até que se descobrisse uma saída legal para a crise político-militar, só contornada por uma Emenda Constitucional que estabeleceu, provisoriamente, o Parlamentarismo no país, diminuindo os poderes do Presidente da República.

Toda essa agitação repercutia no Clube Militar, dividido entre as correntes socialistas e a Cruzada Democrática. Esta última conquistou importante vitória ao aprovar, em Assembleia Parcial Extraordinária, em 13 de março de 1962, a votação secreta para as eleições do Clube Militar, embora para vigorar apenas após as eleições seguintes, para o biênio 1964-66. No entanto, já em 1962, foi eleita a chapa apoiada pela Cruzada Democrática, presidida pelo General Augusto da Cunha Magessi Pereira, derrotando a chapa esquerdista encabeçada pelo Gen Peri Constant Beviláqua. O General Magessi contou com o apoio dos Marechais Eurico Gaspar Dutra, Mascarenhas de Moraes, Odílio Denys e Zenóbio da Costa e dos generais Artur Costa e Silva e Amauri Kruel, conforme noticiou o jornal O Globo.

Em outubro de 1962 o Clube convidou o Presidente da República para uma recepção, com a presença de grande número de sócios, membros da sociedade local e do Corpo Diplomático, numa tentativa de reverter a triste realidade que vivia a Nação, com o governo se entregando, cada vez mais, ao sindicalismo de esquerda.

O panorama político agravou-se em 1963.

Em 3 de julho, o Presidente convocou Assembleia Geral para relatar sua viagem a Brasília, onde a proposta de aumento para os militares, defendida pelo Clube Militar, fora derrotada no Senado por dois votos de diferença. Elementos de esquerda e comunistas, infiltrados na Assembleia, tentaram tumultuá-la, sendo repelidos a braço pela grande maioria.

Em consequência da confusão criada, o Presidente do Clube foi preso por dez dias no Forte de Copacabana, unidade comandada por ilustre oficial, mas de posto de Tenente Coronel.

Cerca de cem outros oficiais foram também presos e transferidos por exigência da esquerda, cada vez mais influente no governo.

Em 12 de setembro de 1963 a crise escalou, com a revolta de praças da Aeronáutica e do Corpo de Fuzileiros Navais da guarnição de Brasília, cujo estopim foi a não diplomação de sargentos eleitos no pleito de 3 de outubro de 1962 pelos Tribunais Eleitorais e pelo fato de o Supremo Tribunal Federal ter deixado de conhecer o recurso interposto pelos eleitos.

Os rebeldes ficaram sem punição, apesar das queixas do Ministro da Marinha, o que causou protesto por parte do Clube Naval, ecoado por ação semelhante do Clube Militar.

Embora prontamente debelado, o episódio era um sinal altamente preocupante de que a subversão começava a ameaçar as bases do estamento militar.

Goulart, inconformado com a situação de Chefe de Estado, em vez de Chefe de Governo, que lhe fora imposta pela emenda do Parlamentarismo, obteve do Congresso a realização de um plebiscito, a se realizar em 6 de janeiro de 1963, para decidir se o povo brasileiro preferia o presidencialismo ou o parlamentarismo. A emenda de 1961, instituidora do parlamentarismo e que garantira a posse de Goulart, previa um plebiscito semelhante, mas só após o fim do período governamental do Presidente.

 Março 64

 Av. Rio Branco – O clamor popular contra a comunização do país

 

Contando com maciça propaganda oficial, o plebiscito restabeleceu o presidencialismo, o que liberou Goulart para aprofundar a subversão rumo a uma república sindicalista, com apoio dos comunistas, que pensavam em fazer dela uma ponte para tomar o poder.

 

A rebelião de marinheiros e de fuzileiros navais, no Sindicato dos Metalúrgicos, em 26 de março de 1964, com a demissão do Ministro da Marinha, que pretendia sufocá-la, e sua substituição por um “Almirante do Povo”, que anistiou os amotinados e foi carregado nos ombros pelos mesmos; os comícios do Presidente Goulart na Estação Central do Brasil e no Automóvel Clube; a crescente anarquia na sociedade brasileira; a eclosão de inúmeras greves simultâneas ou sucessivas; o poder alardeado pelas centrais sindicais, que alegavam “já ter o poder, só lhes faltando o governo”; a insensibilidade do governo e sua descrença na capacidade de reação dos militares, acreditando na força de seu “dispositivo militar”; o clamor popular – de que são exemplos notáveis as “Marchas da Família com Deus pela Liberdade”, reunindo mais de um milhão de pessoas no Rio de Janeiro e outro tanto em São Paulo – capitaneado pela imprensa livre, pela Igreja Católica, pela Maçonaria, pelos Clubes Militares e por Governadores de estados – especialmente Minas Gerais, São Paulo e Guanabara – contrários ao rumo que o país tomava, tudo explodiu na manhã de 31 de março de 1964, quando as tropas da Infantaria Divisionária/4 (Gen Guedes) e da 4ª Brigada de Infantaria (Gen Mourão) deslocaram-se na direção do Rio de Janeiro.

O governo Goulart e sua base sindical e comunista ruíram em poucas horas, praticamente sem necessidade de disparar um tiro.  Mais uma vez, a esquerda embriagara-se em sua própria propaganda, acreditando ter uma força que estava longe de ser real.

Na situação incerta e tumultuada de 1º de abril de 1964, o Clube Militar foi alvo, em diversas oportunidades, de tentativas de invasão e de depredação por parte de grupos esquerdistas, como narra a revista “O Cruzeiro”, em sua edição especial de 10 de abril de 1964:

 

“Estamos em pleno 1º de abril, que desta vez não foi motivo de brincadeira. 10 horas. Avenida Presidente Vargas e Rio Branco com muita gente em seu cruzamento, procurando apanhar carona para seus bairros da Zona Norte, em face da greve geral dos transportes coletivos da cidade. Nas esquinas, piquetes nitidamente esquerdistas e antimilitares, que dominaram a Cinelândia até as 14 horas. A sede do Diretório Regional do PTB, na Cinelândia, ampliava, por seus alto-falantes, a pregação revolucionária, incitando os populares a invadirem o Clube Militar, na esquina da Rua Santa Luzia.

Na verdade, populares tentaram, pouco depois, invadir a sede da entidade de classe dos oficiais do Exército, no que foram obstados pelos disparos dos tenentes, capitães, coronéis e generais que lá se encontravam. Os oficiais dispararam de início para o ar e por fim para valer.

Às 15 horas, mais ou menos, um automóvel lançou volantes na Cinelândia, convocando o povo a participar de um comício em protesto contra o movimento revolucionário e que deveria realizar-se meia hora depois.

14 horas. É o sangue. A multidão tenta, mais uma vez, invadir e depredar o Clube Militar. Um carro de choque da PM posta-se diante do Clube. O povo presente vaia os soldados. Mais tarde, choques do Exército, chamados a pedido do Marechal Magessi, Presidente do Clube Militar, dispersam os agitadores. Que voltam na recarga, pouco depois (para sua infelicidade). Repelidos a bala, deixam em campo, feridos, vários manifestantes; entre eles Labib Carneiro Habibude e Ari Oliveira Mendes Cunha, que morreram às 22 horas, no Pronto Socorro”.

 

Na confusão reinante logo após a eclosão da contra-revolução, algumas emissoras de rádio, particularmente a Rádio Nacional e a Rádio Mairink Veiga, transmitiam notícias tendenciosas, procurando estimular a resistência ao movimento de redemocratização.

O Clube Militar esforçou-se para fazer frente a esses boatos, distribuindo, durante alguns dias, curtas mensagens que chamou de Boletins ao Povo Carioca, com notícias atualizadas sobre a evolução dos acontecimentos.

Ainda no mesmo ano, em 27 de novembro, foi inaugurada expressiva placa de bronze no saguão da Sede Central, em homenagem às vítimas da Intentona Comunista de 1935.     

Nas eleições do Clube para o biênio 68/70 elegeu-se a chapa presidida pelo General Manoel Rodrigues de Carvalho Lisboa, depois da retirada da chapa encabeçada pelo Marechal Joaquim Justino Alves Bastos, que já presidira o Clube em duas oportunidades. A candidatura do Marechal Justino foi intensamente combatida pela Cruzada Democrática, que alegou que, em suas duas gestões anteriores o mesmo fora amparado por “oficiais de esquerda, em chapa quase toda constituída de comunistas e subversivos”. Encerrava-se, assim, difícil período da vida nacional, no qual, mais uma vez, o Clube Militar teve importante participação


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