ONLINE x OFFLINE – FLÁVIO CORRÊA

ONLINE x OFFLINE

Flávio Corrêa

Publicitário (*)

25 de janeiro de 2019

 

Há quem diga que a eleição de Jair Bolsonaro enterrou a mídia tradicional, que os peritos classificam de “offline”.

Num mundo maniqueísta como o nosso, ou é branco ou é preto, sem levar em consideração os cinquenta tons de cinza…
Afinal, como um candidato fazendo a campanha mais barata que se tem notícia, e usando “apenas” as redes sociais, pode ter amealhado quase 60 milhões de votos?
Para o observador menos apressado, a realidade não foi bem essa.
Nada contra internet, é claro, meio que já abiscoitou mais de um terço do investimento publicitário nacional. Antes pelo contrário. Há que se admitir que esta tecnologia revolucionária democratizou o acesso à informação, antes monopólio da TV, jornais, revistas e rádios. Mas decretar o enterro dos meios tradicionais é pelo menos temerário.
Vejamos o caso das eleições de outubro de 2018, quando o candidato Geraldo Alckmin, com o maior tempo de TV, teve uma votação pífia. A culpa é da TV? Não, a culpa é do produto. A TV, nem nenhum outro meio, consegue empurrar goela abaixo dos consumidores (eleitores) um mau produto. Como diria David Ogilvy, um dos papas da publicidade mundial, “o consumidor não é um imbecil”.
Como alertei em vários artigos, Geraldo Alckmin, vítima dos seus próprios erros, reproduziria o que aconteceu com Ulysses Guimarães em 1989. Deu no que deu. A história se repetiu.
Não se pode menosprezar nenhum veículo, seja ele qual for. O horroroso atentado que sofreu o candidato Jair Bolsonaro transformou-o em notícia de primeira página em toda a mídia, e não só nas redes sociais. A repercussão do atentado comoveu o Brasil, que consumiu com avidez os fatos a ele relacionadas em todos os meios possíveis, “on” e “offline”. Bolsonaro virou manchete.
Também não podemos deixar de registrar que os governadores eleitos no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul devem boa parte dos votos que tiveram aos meios tradicionais. Até então praticamente desconhecidos, ganharam notoriedade nos debates televisionados, que foram amplamente cobertos por todos os meios.
Quando Donald Trump e Jair Bolsonaro usam o twitter para se comunicar, o fazem com sobradas razões, aproveitando-se inteligentemente da liberdade de expressão que ele dá ao autor da estória e da sua instantaneidade. Mas há que se levar em conta que esses pronunciamentos eletrônicos se transformam em fonte de notícias, que vão repercutir em todos os meios, sejam eles “on” ou “offline”.
Afinal, comunicação é um processo integrado que, para ser eficaz, deve se utilizar de todos os canais de distribuição existentes.
Nestes tempos cibernéticos o jornalismo realmente profissional nunca foi tão relevante como hoje. Por exemplo, no desmascaramento das abundantes “fake News”, que podem levar aqueles que não se preocupam em validar a fonte a tirar conclusões precipitadas, equivocadas e prejudiciais.
É bom lembrar que o jornalismo não depende mais exclusivamente das rotativas que imprimem papel, dos microfones das rádios e das câmeras de TV. Todos os principais geradores de conteúdo têm hoje suas versões digitais, e com grande sucesso.
O New York Times, que muitos achavam que iria quebrar, nunca esteve tão forte a saudável como atualmente, com seus 3 milhões de assinantes da versão digital mais um milhão de assinantes da versão impressa. O que este público deseja consumir é informação de qualidade e confiável, que é exatamente o que o NYT oferece: credibilidade. No mercado de comunicação há lugar para todos, inclusive para a indústria de livros, que, segundo Markus Dohle, CEO da Penguin Random House, maior grupo editorial do mundo, está numa grande fase, como se fosse um verdadeiro renascimento, vendendo mais do que nunca: 80% na versão impressa e 20% na versão digital. Fenômeno interessante: os jovens estão comprando mais livros depois do surgimento de Harry Potter, há 20 anos.
E vejam só este outro fenômeno: o Japão está experimentando um revolucionário programa educacional, chamado de “Mudança Corajosa” (Futoji no henko), que pretende formar cidadãos para o mundo, e não apenas japoneses. O currículo só tem cinco matérias; aritmética de negócios, civismo, computação, idiomas (pelo menos quatro) e leitura. As crianças vão ter que ler um livro da sua escolha por semana, ou seja, 52 livros por ano! Quem diria que isso pudesse acontecer num ambiente onde a espécie prevalente é o “homo vídeo”?
Enquanto isso, no Brasil mais da metade da população continua ouvindo rádio, segundo a pesquisa Book de Rádio do Kantar Ibope Media.
Curiosamente, 2018 foi o ano em que o brasileiro aprendeu a “assistir” as emissoras, graças às transmissões ao vivo no Facebook e no YouTube, e quando o radio se fez cada vez mais presente nos lares tupiniquins principalmente com o acesso cada vez maior da internet móvel, que se revelou seu grande aliado.
Nos Estados Unidos, a prestigiosa revista Advertising Age destacou o New York Magazine como um exemplo de jornalismo de profundidade. Já a revista The New Yorker teve em 2018 o seu maior pico de circulação, com 1,27 milhões de assinantes.
A TV aberta também cresceu em volume e importância. Um comercial de trinta segundos na transmissão da Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano, custou para o anunciante a bagatela de cinco milhões de dólares!
E o futuro? Como nos ensinou Marcelo Recht, da RBS, o jornalismo do futuro será como a medicina: o Dr. Google seguirá atuante, mas a busca da credibilidade será essencial. Os profissionais que atuam em centros de referência terão valor crescente. E estes centros terão que incorporar os melhores em cada especialidade jornalística.
Com isso, nós, consumidores, vamos ter à nossa disposição informação cada vez mais crível, abundante e relevante, venha ela pela plataforma que for.

*  Faveco é CEO da Brandmotion, Consultoria de Estratégia Empresarial, Fusões & Aquisições. Foi presidente da Ogilvy no Brasil, América Latina, Caribe e África, membro do seu Board e comitê executivo mundial e presidente da ABAP – Associação Brasileira de Agências de Publicidade. Foi Presidente das Organizações Propeg, da Soluziona Consultoria Internacional de TI, CEO da Brazil Trade Shows e VP da Associação Brasileira das Empresas Promotoras de Feiras e Eventos (Ubrafe). É autor do livro “Curto & Grosso”, editado pela Geração Editorial, e escreve artigos para inúmeras publicações locais e do exterior.


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