Um conto de fadas – Gen Clovis Purper Bandeira

            Era uma vez, há muitos e muitos anos, um belo país distante que se chamava, simplesmente, Reino.

            Seu povo, alegre e feliz, não exigia grandes esforços dos governantes para se dar por satisfeito. Por isso, muitos funcionários do Reino aproveitavam a falta de controle e de cobrança por parte dos nobres e do povo para desviar grande parte da riqueza nacional em seu próprio proveito ou no de seus condados e castelos. Com a repetição dessa prática, ela passou a ser normal e muitas pessoas de má índole procuraram o serviço público na esperança de enriquecimento fácil e rápido e de pouco trabalho.

            Para aumentar o atrativo, as carreiras públicas pagavam, em geral, salários bem acima dos praticados pela fraca e desmotivada iniciativa privada, além de oferecerem benefícios paralelos muito interessantes, como planos de saúde completos – em alguns casos, como o dos Príncipes, vitalícios, ilimitados e de alcance mundial – residências faustosas, viagens internacionais pagas com gordas diárias, automóveis com motoristas, gabinetes lotados de funcionários de sua livre escolha, inimputabilidade penal e várias outras vantagens.

            A vida era risonha e feliz, principalmente para a nata da corte, que vivia na capital do Reino, a moderna cidade planejada de Fantasília.

            Há muitos anos o poder maior era exercido pelo Príncipe Lalau e pela Princesa Vilma, amigos de longa data que se revezavam no poder e se encarregavam de esconder e negar os erros e falcatruas que um e outra tinham cometido na administração dos bens públicos.

            Um alegre grupo de baronetes e marqueses gozava também dessas delícias, e os órgãos públicos eram cada vez mais numerosos e bem aparelhados, para comportar a crescente demanda dos cortesãos.

            E assim corriam as coisas em Fantasília, enquanto, no restante do país, o povo permanecia deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo.

            Periodicamente, a turma da corte viajava pelo restante do Reino, em especial na época das eleições, saudadas pela propaganda oficial, regiamente paga, como grande demonstração de civismo e liberdade do povo. Passado o périplo de promessas e juras de amor eterno aos eleitores, com a abertura das urnas – suspeita-se que viciadas – as promessas e o povo eram esquecidos, os cargos e comissões redistribuídos e multiplicados, e a vida continuava lépida e fagueira. E o povo voltava a dormir, contentando-se com muito pouco, nem lembrando o nome do candidato a quem dera seu voto, orgulhoso de participar do democrático processo de escolha dos representantes que defenderiam os interesses populares. Na verdade, os eleitos defendiam seus interesses privados.

            Um dia, porém, a placidez e o belo céu azul de Fantasília foram turbados, além de se fazer ouvir nos ares secos da capital um crescente vozerio e o bater de objetos metálicos.

            Era o povo do Reino, acordado de seu torpor pela Fada Madrinha que, cada vez mais hábil no emprego das modernas ferramentas da informática, ativara alguns órgãos da imprensa e enviara milhões de mensagens pelas redes sociais, até então usadas apenas para trocar fofocas, fotos sensuais e piadinhas, mobilizando a população para exigir melhor trabalho e menos corrupção.

Assim, em várias cidades do Reino – inclusive, por incrível que pareça, em Fantasília – milhares de pessoas, em passeata pelas vias públicas, clamavam por mais ética, eficiência e moralidade no governo.

Colhidos de surpresa, pois até então tinham exercido o monopólio das passeatas, acionando seus sindicatos e “movimentos sociais” para aplaudir os assuntos de seu interesse, Lalau, Vilma e os nobres da corte perceberam, desesperados, que uma séria mudança tinha acontecido e que medidas urgentes eram necessárias para satisfazer as demandas represadas. Tudo era urgente e o Tesouro do Reino, saqueado impunemente por tantos anos e por tanta gente, não dispunha de recursos para atender tais demandas.

De maneira atabalhoada e sem tempo para organizar as justificativas, vários nobres, inclusive a Princesa Vilma, lançaram desculpas esfarrapadas, na tentativa de ganhar tempo para desencadear uma resistência ou uma retirada organizada. Mas a coisa não está fácil.

Normalmente, caro leitor, nesta altura do conto haveria uma intervenção mágica da Fada Madrinha, que resolveria os problemas e todos viveriam felizes para sempre.

Contudo, nas modernas histórias de fadas, o leitor tem uma participação mais ativa, podendo, até, escolher o final da mesma.

Assim sendo, ofereço-lhe dois finais – e você poderá acrescentar quantos outros quiser.

FINAL 1 – Após um grande período de confusão, que durou diversos anos, o Reino viu-se livre da corja que o infelicitava e explorava e, reorganizando o estado e o governo, colocou a Nação no rumo do desenvolvimento sustentável e da distribuição justa dos direitos e deveres dos cidadãos, e todos viveram felizes por largo tempo, até a próxima crise, inevitável nas empresas humanas.

FINAL 2 – Em meio a grande convulsão social, os Príncipes Lalau e Vilma conseguiram firmar-se no poder, criando leis de exceção, calando a imprensa, cooptando a Fada Madrinha, enchendo as prisões com opositores e anexando o Reino a uma poderosa organização política socialista transnacional do continente, abdicando à independência e à soberania do país. E todos viveram infelizes para sempre.

FINAL 3 – …


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